top of page

Dez anos de Spectrolab: uma história construída entre encontros, pesquisa e movimento

  • 2 de jul.
  • 5 min de leitura

Quando o Spectrolab nasceu, há dez anos, ainda não sabíamos exatamente onde aquela inquietação nos levaria. Existia apenas o desejo de experimentar outras possibilidades para o teatro, aproximando máscaras, bonecos, objetos, corpo, artes visuais e performance. Mais do que criar espetáculos, queríamos construir um espaço permanente de investigação, onde cada processo levantasse novas perguntas e cada obra abrisse caminho para a próxima.


Essa história foi construída por muitas mãos. Desde o início, o coletivo encontrou sua força na colaboração entre artistas com diferentes olhares e trajetórias. Douglas Peron, Millena Machado, Caio Ribeiro e Rakoo de Andrade tornaram-se os principais responsáveis por conduzir essa pesquisa ao longo dos anos, contando também com a presença e o apoio de Elizabeth Othon nos primeiros processos do grupo. Ao redor desse núcleo, uma extensa rede de artistas, técnicos, pesquisadores e instituições ajudou a construir a identidade do Spectrolab.


Fotos: Arquivo do Spectrolab - 2016


Ao longo dessa década, tivemos a alegria de compartilhar processos com parceiros que deixaram marcas profundas em nossa caminhada. Henrique Santian, Hélio Flanders, Sandro Lucose, Marithe Azevedo, Marcelo Sant'Anna, André D'Lucca, a Cia. Cena Onze, a Cia. Pessoal de Teatro, o InPróprio Coletivo, Teoria Verde, Sumac Records, Sesc Poconé, Sesc Arsenal, Secretaria de Estado de Cultura Esporte e Lazer de Mato Grosso, e tantos outros contribuíram, em diferentes momentos, para ampliar nossa maneira de pensar a cena. O Spectrolab sempre acreditou que criar é, antes de tudo, encontrar pessoas.


Fotos: Arquivo do Spectrolab - 2016-2020


Desde os primeiros trabalhos, nossa pesquisa procurou aproximar o teatro de formas animadas da performance, das artes visuais e da experimentação com materiais pouco convencionais. Sempre acreditamos que um objeto nunca é apenas um objeto, que uma máscara nunca serve apenas para esconder um rosto e que a matéria também pode carregar memória, presença e dramaturgia.


Essa investigação ganhou novos contornos quando iniciamos uma parceria artística com Rakoo de Andrade. Seu olhar sobre o teatro de animação ajudou a consolidar uma identidade para o coletivo, conduzindo processos que marcaram profundamente nossa trajetória. Entre eles está Maiêutica, espetáculo que se tornou um divisor de águas para o Spectrolab ao conquistar circulação nacional pelo Palco Giratório. Pela primeira vez, nossa pesquisa atravessava o país, encontrando públicos de diferentes estados e confirmando que o teatro produzido em Mato Grosso podia dialogar com qualquer território.


Na sequência, Agostino Peixe Grande aprofundou ainda mais esse caminho. Inspirado pelos imaginários amazônicos, o espetáculo percorreu cidades da Amazônia e fortaleceu nossa investigação sobre ancestralidade, território e memória. Essa aproximação com as narrativas amazônicas permanece presente em muitos dos trabalhos que desenvolvemos até hoje.


Fotos: Arquivo do Spectrolab - 2016-2021


Mas nossa história nunca foi feita apenas pelos espetáculos. Sempre entendemos que pesquisar também significa estudar continuamente. Ao longo desses anos tivemos a oportunidade de participar de workshops, residências e laboratórios com importantes referências do teatro de animação contemporâneo, como Natacha Belova, Bruno Dante, Carolina Garcia, Paulo Balardim e Duda Paiva. Cada encontro trouxe novas perguntas e novas possibilidades para nossa pesquisa, ampliando nosso repertório técnico e artístico.


Esse processo de formação também ganhou um capítulo especial através da trajetória de Rakoo de Andrade, que realizou sua formação em teatro de marionetes na École Nationale Supérieure des Arts de la Marionnette (ESNAM), em Charleville-Mézières, na França, uma das mais importantes instituições dedicadas ao teatro de animação no mundo. Essa experiência aproximou ainda mais o Spectrolab das pesquisas internacionais sobre formas animadas e fortaleceu nossa vocação para o intercâmbio artístico.


Em 2019, atravessamos definitivamente as fronteiras brasileiras com a criação do Spectrolab França. Mais do que estabelecer um núcleo em outro país, esse momento inaugurou uma investigação verdadeiramente intercontinental. Passamos a poder desenvolver processos compartilhados entre Brasil e França, construindo residências artísticas, intercâmbios e novas parcerias que ampliaram nossa forma de pensar o teatro. O diálogo entre diferentes culturas passou a fazer parte do próprio processo de criação do coletivo e assim, outros artistas e parceiros chegaram para contribuir com o coletivo, como Morgane Aimerie Robin, Cassiel Bruder, Laurine Chalon, Lucille Gallard.


Ao longo desse percurso nasceram diversos espetáculos e experimentos, como Epifânia, Coió, Ensaios com Ela, Resí(duo) e tantas outras investigações que ajudaram a construir nossa identidade artística. Cada trabalho deixou perguntas que continuaram sendo desenvolvidas no seguinte. Aos poucos, nossa pesquisa passou a incorporar também resíduos industriais, sucata eletrônica e materiais descartados, entendendo que aquilo que perde sua função cotidiana pode ganhar uma nova vida no palco.


Foi justamente dessa soma de experiências que nasceu Jantar. O espetáculo reúne praticamente todas as pesquisas desenvolvidas ao longo da última década: máscaras, teatro de objetos, resíduos eletrônicos, narrativas amazônicas, performance, ancestralidade e questões ambientais. Nada surgiu por acaso. Cada escolha estética carrega um pouco da história construída pelo coletivo ao longo desses dez anos.


Fotos: Arquivo do Spectrolab - 2018-2026


Em 2022, outro sonho se concretizou: conquistamos um ateliê próprio, compartilhado com o Labirinto Instituto Criativo. Ter um espaço permanente transformou profundamente nossa rotina. O ateliê passou a ser o lugar onde construímos bonecos, máscaras, cenografias, experimentamos materiais, realizamos ensaios, recebemos artistas e desenvolvemos oficinas. Mais do que uma oficina de construção, ele se tornou uma casa para a pesquisa do Spectrolab.


Esse espaço também fortaleceu uma dimensão que sempre esteve presente em nossa trajetória: a formação de novos artistas. Compartilhar processos nunca foi uma atividade paralela ao nosso trabalho, mas parte da própria pesquisa. Ao longo desses anos realizamos cursos, oficinas e laboratórios em universidades, festivais, escolas, CRAS, CREAS e diversos projetos sociais. Iniciativas como Reciclar Brincando e as oficinas de construção de bonecos aproximaram crianças, adolescentes e adultos do teatro de animação, mostrando que materiais simples e objetos descartados podem se transformar em ferramentas de imaginação, expressão e pertencimento.


Fotos: Arquivo do Spectrolab - 2016-2025


Talvez o que mais nos emocione ao olhar para essa década seja perceber que nenhum espetáculo termina quando as cortinas se fecham. Cada criação continua vivendo dentro da próxima. Maiêutica abriu caminhos para Agostino Peixe Grande. Agostino fortaleceu nossa aproximação com as narrativas amazônicas. Resí(duo) nos ensinou a olhar para aquilo que descartamos. Jantar nasceu justamente desse acúmulo de experiências, encontros e perguntas.


Celebrar dez anos não significa concluir uma história. Significa reconhecer tudo o que foi construído até aqui para seguir investigando. Continuamos movidos pela mesma curiosidade que deu origem ao coletivo: descobrir novas formas de dar vida à matéria, criar imagens que permaneçam na memória e construir um teatro capaz de atravessar fronteiras sem perder suas raízes.


Ainda existem muitos bonecos por construir, muitas máscaras esperando para ganhar um rosto, muitos objetos escondendo histórias e muitos encontros por acontecer. Se os primeiros dez anos foram um laboratório de descobertas, temos a sensação de que estamos apenas começando.

 
 
 

Comentários


bottom of page